Foi com um discurso contundente sobre o direito da mulher negra à palavra que a presidente da CAASP, Diva Zitto, abriu no dia 30 de julho a segunda edição do Julho das Pretas da Caixa de Assistência dos Advogados de São Paulo (CAASP). O evento gratuito foi realizado na Universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, para celebrar o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.
A primeira mulher negra a presidir a CAASP, lembrou que, por muito tempo, mulheres negras ouviram que falavam apenas para si mesmas. Mas contestou essa ideia ao afirmar que, na verdade, muitos se acostumaram a falar por elas.
Inspirada pela escritora americana Audre Lorde, que reforçou que o medo não pode ser motivo para o silenciamento. Diva Zitto sublinhou:
Para a presidente, o evento realizado pela CAASP representa justamente o movimento de de tornar visíveis histórias de mulheres que “romperam o teto de vidro”, destacando-se em suas profissões.
“Hoje estamos aqui para conhecer histórias que fortalecem nossos passos na normalização e consolidação da presença da mulher negra no topo da pirâmide social, não mais na base dessa pirâmide", afirmou Diva Zitto.
O presidente da OAB SP, Leonardo Sica, por sua vez, reafirmou o compromisso institucional da entidade com a inclusão e o combate ao racismo. “Eu estou aqui para ouvir, para compartilhar e para reafirmar o compromisso firme e permanente da maior instituição da sociedade civil brasileira, a Ordem dos Advogados do Brasil, Seção São Paulo, com a luta contra toda forma de discriminação e com a ampliação das políticas de inclusão e diversidade. Nós não vamos recuar um milímetro de tudo aquilo que estamos fazendo” afirmou.
O reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente, também discursou no evento e recordou a parceria histórica entre a instituição e a advocacia paulista.

Durante a cerimônia, a CAASP, a OAB SP e o Meu Curso anunciaram uma parceria para a oferta de cinquenta bolsas de estudos de pós-graduação.
Também prestigiaram o 2º Julho das Pretas os diretores da CAASP Pedro Iokoi (tesoureiro), Solange de Amorim Coelho (secretária-geral adjunta) e Lúcia Robalo e Fábio Gaspar. Pela OAB SP estiveram presentes o tesoureiro da OAB SP, Alexandre de Sá Domingues, e a secretária-geral adjunta, Viviane Scrivani, que foi ao palco no painel "Vozes que Transformam: Liderança, Representatividade e Impacto".
Liderança, autocuidado e arte

Sob o tema "Conexões, Vozes e Protagonismo Feminino", a tarde se desdobrou em três painéis organizados ao redor de eixos, que juntos formavam um só argumento: não há protagonismo sem justiça e não há liderança sem saúde integral. Advogadas, médicas, executivas e outras lideranças dividiram o palco para debater direito, saúde e autocuidado.
Fora do auditório, a livraria móvel da CAASP oferecia, com até 40% de desconto, obras de autoras negras nacionais e também tesouros da literatura latina e caribenha. Os participantes do Julho das Pretas também tiveram acesso à realização de testes genéticos de ancestralidade da Genera, oferecidos com condições e valores exclusivos para os profissionais da advocacia no próprio local.
O evento contou ainda com um desfile da Casa Cléo Ateliê, marca paulistana de moda autoral afro-brasileira fundada por Cléo Dias pela estilista, modelista e figurinista do tradicional bloco afro Ilú Obá de Min. Cléo Dias resumiu o significado daquele momento: "É uma honra contribuir com um evento que tem feito tanto pelas mulheres negras. Minha intenção é que as pessoas usem peças que unam criatividade, elegância e conforto".
O samba do grupo Preta Batuque encerrou as comemorações do Julho das Pretas da CAASP.
Homenagem à Eunice Prudente
O Julho das Pretas prestou um tributo especial à trajetória e ao legado da jurista Eunice Prudente, a primeira mulher negra a integrar o corpo docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e da Academia Paulista de Letras Jurídicas. Visivelmente emocionada, ela fez questão de dividir a homenagem com quem vivera a luta ao seu lado, lembrando das "muitas advogadas negras e brancas que batalharam para que a Comissão de Igualdade Racial fosse estatutária e de todos". E deixou, por fim, uma espécie de mapa para os que ainda caminham: "Orgulhem-se sempre de serem advogados. Este evento demonstrou muito bem quais são os caminhos para o enfrentamento da discriminação racial: é resiliência, educação e a arte."