Dias de Ativismo: superação da violência é chave para aumento da representação feminina na política

Por Karoline Pinheiro

Em 22 novembro 2021


A reportagem a seguir faz parte da campanha “16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres”, mobilização global concebida pela ONU Mulheres, a qual a CAASP adere com o fim de trazer novos olhares sobre a violência contra as mulheres e reflexão para a busca de soluções. Confira outros materiais da campanha em nossas redes sociais. 

 

A importância da paridade de gênero na política é assunto recorrente, mas o número de mulheres eleitas para cargos no Executivo e no Legislativo ainda é baixo no Brasil. Sem negar os avanços que garantem a elas melhores oportunidades de participação no jogo democrático – como as obrigatoriedades de os partidos terem ao menos três mulheres para cada sete homens concorrendo às eleições e as siglas serem obrigadas a destinar, no mínimo, 30% do que recebem do fundo eleitoral às candidatas -, um fator ainda as exclui da vida pública: a violência. 

No último pleito municipal, em 2020, a violência política direcionada às mulheres foi marcante nas redes sociais. O MonitorA, um relatório da Revista AzMina e do InternetLab, que acompanhou, de setembro a novembro de 2020, as redes sociais (Twitter, Instagram e YouTube)  de 175 candidaturas de homens e mulheres para cargos de vereança, vice-prefeituras e prefeituras registrou um cenário hostil às mulheres por serem simplesmente o que são - mulheres (cisgêneros ou transgêneros).

“O cenário é constituído de ameaças, discursos de incitação à violência e ódio, desmerecimento intelectual, críticas a seus corpos, idade e pertencimento étnico-racial, e, quanto às mulheres trans, negação de sua identidade de gênero”, diz o estudo. 

A violência não só dificulta a entrada delas na vida política como também a permanência das que entram, por temerem pela vida ou por não terem como lidar com as consequências psicológicas das agressões.

Mesmo com um mandato de vereadora conferido por 50 mil eleitores paulistanos, Erika Hilton (Psol) é vítima constante da violência de gênero dentro e fora do Câmara Municipal. No início deste ano, ela registrou um boletim de ocorrência por ameaça após um homem tentar invadir seu gabinete. Também processou 50 pessoas que a ofenderam e ameaçaram nas redes sociais. 

“A violência de gênero se apresenta a mim hoje como uma tentativa de me silenciar e de diminuir o meu trabalho. Isso ocorre pelo fato de eu ser uma mulher, negra e travesti ocupando um lugar que na cabeça da sociedade cabe aos homens”, diz Hilton. E completa: “É importante que as vítimas de violência tenham força, denunciem, peçam ajuda e acreditem que não estão sozinhas”.

A violência sempre esteve presente na vida da vereadora. Erika Hilton foi expulsa de casa durante a adolescência por causa de sua expressão de gênero. Com apenas 14 anos, entrou para o mercado da prostituição, única possibilidade de fonte de renda e subsistência para 90% da população trans no Brasil, segundo levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).  

À reportagem da CAASP Hilton disse que, apesar dos infortúnios, aprendeu grandes lições com as travestis das esquinas de Francisco Morato, onde cresceu e trabalhou. “Eu aprendi a lutar, a sobreviver na rua, a suportar a violência de gênero com essas mulheres anônimas, que haviam enfrentado as mais diversas atrocidades, e que me deram força, condição e tapas na cara para que eu de fato suportasse e me firmasse enquanto alguém de direito, enquanto alguém que existe e que vai ter que resistir e transformar a dor em luta”, declara. 

Depois de anos na rua, Hilton retomou o relacionamento com a mãe, voltou para casa e ingressou num cursinho pré-vestibular. Na militância estudantil, encontrou na política sua vocação e uma estratégia fundamental para sua sobrevivência. Ela iniciou sua trajetória na vida pública em 2018, como co-deputada estadual da Bancada Ativista (Psol), primeira candidatura coletiva eleita para a Assembleia Legislativa paulista. 

“Quando tomamos consciência do impacto da política nas nossas vidas, começamos a nos organizar para hackear esse lugar e, através dessa ocupação, produzir políticas que minimizem o nosso sofrimento, que nos tragam garantia de direito e que nos possibilitem viver em uma sociedade mais harmônica, mais respeitosa, mais participativa, mais equânime e mais possível para nós mulheres, para nós negros e negras, para nós indígenas, para nós da comunidade LGBTQIA+, para nós todos, os oprimidos”, apregoa a vereadora, enfatizando a necessidade de ocupar as instituições: “É fundamental, urgente e necessário que nós também participemos do processo político para dar rumos diferentes à nação”.

 

Foto: Victor Monteiro


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