O fortalecimento do protagonismo das mulheres negras foi o eixo central do Julho das Pretas, promovido pela CAASP. O encontro reuniu especialistas para debater o racismo estrutural, saúde, representatividade e a liderança feminina no ambiente jurídico e na sociedade.
Sob a mediação da conselheira da OAB SP, Camila Lima, as palestrantes do primeiro painel (foto de abertura) colocaram o racismo estrutural do mercado jurídico em xeque.
A advogada Claudia Luna, provocou a plateia ao questionar os padrões de representação no Judiciário: “A simbologia da nossa justiça vem de uma cultura eurocêntrica que não reflete os 56% da população. A justiça real do nosso país deveria ser representada por uma mulher preta”.
Ao abordar como essa barreira institucional se reflete na ascensão profissional, Sandra Monção, conselheira da OAB SP, denunciou a exigência de métricas desiguais para advogadas negras: “Quem definiu o que é ter perfil ou liderança? Essas barreiras surgem disfarçadas de discursos técnicos. Precisamos performar muito acima da média para sermos aceitas, enquanto entregas medianas de outros colegas recebem as melhores oportunidades”.
A diretora Jurídica da Universidade Zumbi dos Palmares, Camila Vicente, lembrou que o avanço na carreira exige resiliência diante de sobrecargas diárias: “Enfrentamos uma jornada tripla ou quádrupla entre trabalho, estudo e família, sem rede de apoio. O caminho é difícil, mas seguimos firmes porque caminhamos sobre os ombros de quem já abriu essas portas”.

Potência feminina: bem-estar, saúde e autocuidado
A presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB SP, Rosana Rufino, mediou o segundo painel, centrado na saúde como sustentação para o protagonismo.
Abrindo o bloco, a cirurgiã-dentista Michelle Ferreira defendeu que o cuidado odontológico vai além do físico e toca na autoestima: “A saúde começa pela boca, mas a saúde bucal também é estética e identidade. A mulher negra historicamente tem a autoestima abalada por ser invisibilizada. Ver outras mulheres pretas buscando o autocuidado nos motiva a nos cuidarmos também”.
Na sequência, a dermatologista Camila Rosa conectou o cuidado pessoal diretamente com a postura em posições de liderança: “Nossa pele e cabelos comunicam nossa saúde e identidade. Quando a mulher negra prioriza sua saúde física e mental, fortalece sua autoconfiança, o que reflete diretamente na sua performance profissional.”
Finalizando as reflexões de saúde, a ginecologista Gisele Silva pontuou a importância do acolhimento médico: “A mulher negra precisa de uma escuta qualificada. Quando uma médica negra acolhe uma paciente mulher negra, a barreira da desconfiança se dissolve. Essa escuta humanizada valida vivências e garante um cuidado integral”.

O terceiro painel, conduzido pela conselheira da OAB SP, Maria Cristina, voltou os debates para a conquista estratégica de espaços e o legado.
Ao relembrar o preconceito velado que sofreu no início de sua trajetória, a cantora Paula Lima destacou a importância de persistir: “Prestes a gravar meu primeiro trabalho, uma gravadora recuou porque um produtor disse que o mercado brasileiro não aceitaria duas mulheres negras cantando no mesmo período. Como eu era jovem e afrontosa, não desisti”.
A necessidade de transformar a presença em pontes para outras mulheres foi reforçada por Heloísa Santana, presidente executiva da Associação de Marketing Promocional (AMPRO): “Estar nesses espaços só faz sentido quando abrimos portas para outras pessoas, seja oferecendo mentoria ou mostrando o caminho. Isso é construir um legado para famílias pretas que não puderam alcançar esses objetivos no passado.”
Aprofundando a discussão sobre o ambiente corporativo, Ana Paula Santos, cofundadora do Denga Love, aplicativo de relacionamento brasileiro e afrocentrado, defendeu o autoconhecimento como chave de posicionamento: “Estudamos muito para desbravar frentes, mas a inteligência emocional é essencial. Resiliência não é abaixar a cabeça, é saber a hora e o lugar certos de se impor. As habilidades comportamentais fazem toda a diferença”.
Fechando as exposições, a secretária-geral adjunta da OAB SP, Viviane Scravini, incentivou a valorização das competências natas que as mulheres negras já exercem no dia a dia: “Muitas vezes nos questionamos por não ter títulos no exterior, mas precisamos lembrar das nossas habilidades reais. Gerir recursos para fechar as contas, ensinar na comunidade e liderar são competências natas da mulher preta. Já temos a capacidade de direcionar e liderar”.