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Revista da CAASP -Edição 12_-

é colocada mercado. Eu lhe pergunto: há um mercado melhor do que esse? Muita gente vai falar das mulas. A mula é um pecadilho, uma formiguinha nesse contexto. Quanto pode transportar uma mula? Ora, a droga vem em contêineres. O Brasil é um corredor de passagem de drogas, e todo país que é corredor de passagem vira grande consumidor, e o Brasil já é um grandíssimo consumidor. Veja: até a Colômbia é grande consumidora, além de exportadora. Estou falando de todas as drogas, e essas organizações atuam em todo lugar do mundo, porque hoje o crime organizado dá-se em rede de abastecimento. Por aqui, vemos operações como a da Cracolândia, feita pelo prefeito anterior e o governador atual, com aquela barbaridade de perseguir usuário e a incapacidade de se cortar a rede de abastecimento. Quando do encontro de Nápoles, que mencionei, o que aconteceu? As máfias tinham declarado guerra ao Estado, principalmente ao Estado italiano. Mataram juízes, entre eles Giovane Falcone e Paolo Borsellino, policiais, promotores. Soltaram bombas em Roma, em Florença, em Milão, perto da catedral gótica. No Estádio Olímpico de Roma iam detonar uma bomba – falhou o telecomando – num jogo Roma e Lázio, como um Palmeiras e Corinthians com estádio cheio. Bem, em Nápoles, naquele encontro, decidiu-se pela cooperação internacional, e de lá saiu uma recomendação para não se legislar e não se criar normas administrativas sem que se conheça o fenômeno. Agora, eu volto à Cracolândia. A Prefeitura de São Paulo fez um programa humanitário para a Cracolândia, inclusive com oferta de trabalho e pagamento. O que ocorre quando do pagamento? Os que recebem compram crack. Eu pergunto: se conhece o fenômeno? Não. O que existe? Existem um prefeito diletante e um governador que, além de diletante, é arbitrário e acha que tem que bater – agora mudou um pouco o discurso, mas sempre foi esse. Na sua opinião, o que se pode fazer para reduzir os danos causados pelos drogas? No mundo civilizado, fazem-se salas seguras para uso, com estrutura fornecida pelo próprio Estado, bem como o acompanhamento sanitário para o usuário. E ali trabalham psicólogos. Se o indivíduo quiser um emprego, ele o obtém, participa de conversas sobre o tema drogas e vai sendo informado. Quando se fala em salas seguras para uso de droga no Brasil, a nossa direita vai à loucura. Mas, na verdade, a redução de danos é um dos alicerces necessários numa política antidrogas. Agosto 2014 / Revista da CAASP // 13 O que o senhor acha do modelo uruguaio para a maconha? Para começo de conversa, todo mundo está falando de “modelo uruguaio”. O modelo é holandês, de 1968. A Holanda concluiu que deveria, para combater o crime organizado, separar o usuário do fornecedor, cortar esse vínculo. Foram abertos os cafés, lugares autorizados para que pessoas de


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