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Notícia: Descuido com prevenção leva ao aumento dos casos de sífilis*

Segunda-Feira, 30 de Janeiro de 2017

Descuido com prevenção leva ao aumento dos casos de sífilis*

Em outubro de 2016, o Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional de combate à sífilis. De caráter emergencial, a ação deve mobilizar gestores e profissionais de saúde para detecção e tratamento da sífilis, doença que registrou ao avanço dramático no Brasil nos últimos cinco anos. Entre junho de 2010 e 2016, foram notificados quase 230 mil casos novos da doença, de acordo com o boletim epidemiológico do governo. Os casos de sífilis congênita (transmitida de mãe para filho durante a gestação ou no parto) praticamente triplicou em meia década. Em 2015, a cada mil bebês nascidos, 6,5 eram portadores de sífilis. Em 2010, eram 2,4 bebês com a doença em cada mil nascidos.

Em parte, a escalada numérica dos casos de sífilis pode ser explicada pelo fato de a notificação da doença ter se tornado obrigatória em 2010. Mas esse não é o único motivo, segundo o infectologista Leonardo Weissmann, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia. “É uma tendência não somente no Brasil, mas também nos Estados Unidos e na Europa, onde se observa um aumento importante dos casos de infecções sexualmente transmissíveis por causa do relaxamento nos hábitos de prevenção, com diminuição no uso do preservativo”, explica Weissmann. E vai além: “Grande parte das pessoas não usa camisinha porque acredita que a Aids se tornou uma doença tratável, esquecendo-se que não somente o HIV é transmitido sem o uso do preservativo”.

Soma-se à conduta pouco prudente o fato de a penicilina Benzatina, a popular Benzetacil, usada no tratamento da sífilis, ter faltado no mercado mundial desde 2014. A escassez pode ter contribuído para o avanço da doença, principalmente a do tipo congênito. “Embora existam alternativas de tratamento, somente a penincilina é capaz de prevenir a transmissão da doença para o feto”, sublinha Weissmann.

A sífilis é uma doença infectocontagiosa causada pela bactéria treponema pallidum. A teoria mais difundida sobre sua origem diz que a doença foi levada das Américas para a Europa pelo navegador e explorador italiano Cristóvão Colombo, por volta de 1492. Até a descoberta da penicilina, em 1928, a sífilis fez milhares de vítimas. A campanha para o aumento do uso de preservativos, na década de 1980, esta devido à descoberta do vírus HIV, também ajudou a reduzir os casos de sífilis, bem como de outras DSTs.

A sífilis é uma enfermidade se manifesta em três estágios. A primeira fase acontece de 10 a 90 dias após a exposição à bactéria. Os sintomas são caracterizados pela presença de pequenas e indolores feridas nos órgãos genitais (cancro duro). Essas feridas desaparecem espontaneamente, dando a impressão de que a cura ocorreu sem tratamento. Ainda na primeira fase, pode haver a presença de gânglios aumentados e ínguas na região das virilhas.

Sem tratamento, depois de seis a oito semanas após as primeiras manifestações, o segundo estágio da doença é instalado e ocorre a presença de manchas vermelhas que não coçam pelo corpo e, especialmente, nas palmas das mãos e plantas dos pés. Podem também ocorrer febre, dor de cabeça e mal-estar. Se igualmente nessa fase não houver tratamento adequado, a sífilis atingirá seu terceiro estágio tornando-se assintomática. Por outro lado, seu estrago é progressivo. A doença retorna de dois a 40 anos após o contágio com agressividade e acompanhada de complicações sérias nos sistemas cardiovasculares e neurológicos, além de lesões nos ossos e na pele. Suas consequências podem levar à morte.

Mulheres portadoras de sífilis em qualquer estágio, sem tratamento, quando grávidas transmitem para o feto a bactéria, além de estarem propensas a sofrer abortos espontâneos e partos prematuros. Os bebês infectados começam a apresentar sinais e sequelas desde as primeiras semanas de vida ou até pouco mais de dois anos após o nascimento. São elas: feridas no corpo, deformações, problemas ósseos, surdez, cegueira, deficiência mental e morte.

Por seus sintomas iniciais geralmente não serem notados, o diagnóstico da sífilis é difícil. No caso das mulheres grávidas, um pré-natal qualificado pressupõe como rotina exames para o diagnóstico da sífilis no primeiro logo na primeira consulta durante a gestação. Aos demais indivíduos restam prevenção e atenção aos sinais no corpo.

“Qualquer pessoa com a vida sexual ativa está sujeita ao contágio, especialmente aquelas que tenham pequenas lesões na vagina ou no pênis”, pontua o especialista da SBI, Leonardo Weissmann. “O primeiro sintoma da sífilis - o cancro duro - nos homens aparece mais comumente em volta da pele que recobre a extremidade do pênis, enquanto nas mulheres surge na região dos pequenos lábios. Nas relações sexuais esses são os primeiros pontos das genitais em que há atrito e que permitem a passagem da bactéria de uma pessoa infectada para o não infectado”, salienta o médico.

Assim como para a detecção de HIV, o Sistema Único de Saúde disponibiliza um teste rápido para diagnóstico de sífilis. O resultado sai em no máximo 30 minutos.

A sífilis tem cura. O tratamento varia conforme o estágio da doença, mas a droga preferencialmente administrada é a penicilina (benzatina ou cristalina). Portadores de alergia à penicilina são submetidos à dessensibilização controlada. Exames clínicos e laboratoriais ao longo do tratamento são recomendados para avaliar a evolução da doença e, posteriormente, sua cura. A terapia deve ser estendida também aos parceiros sexuais, de modo a impedir que ocorra uma reinfecção, já que não há imunidade contra a sífilis.

*Reportagem publicada originalmente no Jornal do Advogado


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