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Notícia: Perda de sensibilidade nas mãos pode esconder doença grave*

Segunda-Feira, 9 de Janeiro de 2017

Perda de sensibilidade nas mãos pode esconder doença grave*

Com a mão realizamos tarefas de extrema precisão, conhecemos e percebemos a extensão, a temperatura, a forma, a consistência de algo ou de alguém. Para cumprir essas funções, a mão conta com uma estrutura complexa. E, assim como qualquer membro, está sujeita a lesões tão severas que podem levar à sua incapacidade funcional. Entre essas lesões está a Síndrome do Túnel do Carpo (STC), uma perturbação das funções do sistema nervoso de maior incidência na mão.

A dormência de uma das mãos à noite é um dos primeiros sinais da STC e um dos mais negligenciados, como observa o ortopedista e especialista em cirurgia da mão Pedro José Pires Neto. “Raramente o paciente, na primeira queixa de parestesia (dormência), procura o atendimento médico. Ele relaciona esse sintoma à possibilidade de ter dormir sobre a mão – o que é possível. Mas com o tempo outros sintomas vão aparecendo”, relata o médico, que preside o Comitê de Cirurgia da Mão da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia e também a Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão.

A Síndrome do Túnel do Carpo ocorre pela compressão do nervo mediano. Na região do punho existe um canal denominado de túnel do carpo, canal formado por ossos e fibras. No seu interior passam o nervo mediano e outros tendões musculares. Quando o ligamento se hipertrofia ou os tendões estão inflamados, o espaço dentro do túnel é reduzido, o que comprime o nervo mediano e, consequentemente, origina a STC. "A estrutura mais sensível dentro desse canal é justamente o nervo mediano”, enfatiza Pires Neto.

Em seu estágio inicial, a STC caracteriza-se por sintomatologia unicamente noturna, caracterizando-se principalmente por dor ou dormência nas mãos intensas ao ponto de acordar a pessoa. Com o tempo, os sintomas passam a se manifestar durante o dia. A dor também se desloca para o braço e pode chegar ao ombro. Começa a ocorrer também a diminuição do tato nos dedos, com exceção do dedo mínimo, e sudorese nas mãos. Com a perda da sensação nos dedos, pode haver dificuldade de executar tarefas simples do dia a dia, como pegar objetos, escrever, amarrar os sapatos etc. Algumas pessoas podem apresentar até dificuldade de distinguir o quente do frio. Movimentos repetitivos (costurar, tricotar, escrever, digitar etc.) podem exacerbar os sintomas. A redução, pelo menos temporária, da atividade permite muitas vezes um alívio. Em estágios avançados esses sintomas são permanentes, com sinais de déficit sensitivo e motor. Como consequência, têm-se limitação direta de atividades e incapacidade ou baixa produtividade no trabalho.

“A dor era tanta que eu tinha que parar de trabalhar”

Não faz muito tempo. a assistente financeira Idalice Pinheiro da Silva, de 48 anos, sofreu as agruras da STC. Ela lembra que os primeiros sintomas começaram a surgir em 2014. “Acordava de madrugada sempre com a mão e o braço direito dormentes”.
Ela decidiu procurar ajuda médica somente em 2015, quando os sintomas se agravaram. “No trabalho, digitando no computador, a mão começava a dormir e os dedos a ficarem imóveis. Também sentia agulhadas na palma da mão e nos dedos. Eu procurava fazer minhas tarefas no mesmo ritmo, mas a dor aumentava e eu tinha que parar por alguns instantes, flexionar os dedos, e esfregar as mãos para continuar”, detalha. O incômodo era tamanho que afetava também seu humor.

Como em todas as doenças, o histórico do paciente é aspecto importante a ser avaliado na hora do diagnóstico. Na STC as manifestações sentidas pelo paciente sugerem o diagnóstico da síndrome, mas exames complementares que confirmem e quantifiquem o grau de compressão do nervo mediano devem ser solicitados, como o eletroneuromiografia (ENMG). Esse exame é bilateral e permite igualmente a análise da amplitude e da duração das respostas motoras e sensitivas da mão.

No primeiro momento, Idalice não passou pelo ENMG. Foi diretamente encaminhada para as sessões de fisioterapia e medicada com anti-inflamatórios, ações que configuram o tratamento clínico da STC. Contudo, ela não respondeu bem ao tratamento conservador, até porque o uso de anti-inflamatório teve de ser interrompido, já que ela aparesenta um quadro de gastrite crônica e, nessas condições, anti-inflamatórios devem ser evitados. Em 2016, pela eletroneuromiografia, constatou-se a gravidade do problema.

“Um diagnóstico preciso é decisivo para realização do tratamento mais adequado, principalmente nos casos de estabelecer urgência ou não da cirurgia. Compressões graves não respondem a tratamentos clínicos”, salienta o especialista em cirurgia da mão.

O tratamento clínico representa, na maioria dos casos, a primeira alternativa. Consiste inicialmente em evitar situações que precipitem a dor, como os movimentos de flexão e extensão, que induzem um aumento da pressão no interior do túnel do carpo, e a colocação de uma órtese para imobilizar o pulso a noite. Acompanham também seções de fisioterapia e o uso de anti-inflamatório não-hormonal. Essa peculiaridade medicamentosa ocorre porque percebe-se uma relação entre distúrbios hormonais e a ocorrência da síndrome. “Nota-se um aumento da incidência da STC em mulheres após a menopausa ou durante a gravidez, momentos onde há perturbações dos níveis hormonais”, acrescenta Pires Neto.

Se não houver melhora no quadro, aplica-se cortisona dentro do canal do carpo, que tem efeito direto sobre o nervo mediano. Esgotadas as possibilidades, o tratamento cirúrgico é indicado. Quando a STC é bilateral, o que é frequente, a cirurgia é feita primeiro no lado que mais incomoda e depois, no outro lado. As dores desaparecem quase que imediatamente. “Após a cirurgia, recomenda-se ao paciente sessões de fisioterapia, para acelerar o processo de recuperação das funções da mão”, pontua.

Idalice passou por cirurgia no último dia 22 de novembro. As dores desapareceram quase que imediatamente após o procedimento. Restaram apenas as dificuldades e os cuidados relacionados ao pós-operatório, mas em pouco suas mãos voltarão a desenvolver suas funções normalmente.


Não existe medida preventiva concreta para a Síndrome do Túnel do Carpo, mas é preciso se policiar, não realizar tarefas repetitivas de flexão do punho e evitar doenças que provoquem aumento de volume das estruturas presentes no interior do túnel do carpo, como diabetes, obesidade, doenças da tireoide, causas traumáticas, como quedas e fraturas, ou inflamatórias, como artrite reumatoide e L.E.R. (Lesão do Esforço Repetitivo).

 

Reportagem publicada originalmente no Jornal do Advogado / dez 16-jan 17


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