Medicina e saúde: dores da artrose atingem também os jovens*

Genética, hormônios, obesidade e avanço da idade estão entre os principais fatores que causam a osteoartrite, que afeta joelhos, mãos e coluna

Por Paulo Henrique Arantes

Em 20 maio 2013


As cartilagens são tecidos finos que revestem as articulações do corpo e permitem que os ossos deslizem uns sobre os outros sem que se friccionem ao ponto de causar dor. Por não se regenerarem, sofrem desgaste natural ao longo da vida, mas, em algumas pessoas, esse processo pode ocorrer de forma mais rápida que o normal. Com o desgaste das cartilagens, o atrito entre os ossos pode se tornar doloroso e provocar inchaço e rigidez, num quadro popularmente chamado de artrose, cuja denominação correta é osteoartrite. Movimentos simples como caminhar, levantar-se de uma cadeira ou subir uma escada transformam-se em tortura.

 

A osteoartrite tem prevalência de 85% em indivíduos com mais de 60 anos. Segundo o reumatologista Ibsen Coimbra, presidente da Comissão de Osteoartrite da Sociedade Brasileira de Reumatologia, a chegada da terceira idade não é o único fator determinante para o desenvolvimento da doença. “Hoje, sabemos tratar-se de uma doença multifatorial, ou seja, a idade não é o único causador, apesar de ser o mais visível. Existem jovens que sofrem desse problema”, afirma Coimbra, que é professor da Faculdade de Medicina da Unicamp.

 

Entre os fatores de risco além da idade para que uma pessoa desenvolva osteoartrite estão a genética (principalmente entre jovens), os hormônios (mulheres que entram na menopausa), o desalinhamento dos membros (joelhos virados para dentro, por exemplo), traumas provocados por acidentes e obesidade. Geralmente, homens sentem as manifestações da doença mais cedo, antes dos 60 anos. Nas mulheres, os índices aceleram-se após o ingresso na menopausa. Joelhos, mãos, coluna e quadril são as regiões mais afetadas pela doença.

 

“Os pacientes sentem dificuldade e dor quando vão iniciar um movimento depois de passar certo tempo em repouso. Depois de 30 minutos de movimentação ininterrupta, dá-se o que chamamos de ritmo mecânico, quando o movimento torna-se habitual e a dificuldade some. No entanto, a dor persiste e só cessa quando o paciente volta a sua posição de repouso”, descreve Coimbra. Segundo o especialista, a doença apresenta ainda períodos em que os sintomas tornam-se mais intensos: “Apesar dos estudos científicos não conseguirem comprovar a relação com o ambiente, os pacientes reclamam com frequência de que os sintomas pioram com a queda da temperatura.”

 

Para um diagnóstico preciso da artrose, além do relato do paciente é indispensável o exame de raio X. Para sanar dúvidas persistentes, indica-se ressonância magnética, principalmente para pessoas mais jovens, as quais, pelo baixo grau de comprometimento das articulações, apresentam quadro às vezes imperceptível por raio X.

 

“Antes de qualquer medida de tratamento, é imprescindível que o médico esclareça ao paciente o que vem a ser a osteoartrite. Depois, que o alerte de que essa é uma doença sem cura, mas tratável”, salienta o médico. Exercícios fisioterápicos de fortalecimento muscular e aeróbicos são recomendados para aliviar as dores. Coimbra recomenda ainda a perda de peso para pacientes obesos, aqueles que têm índice de massa corporal acima de 30. “Se o paciente obeso perder duas unidades no índice de massa corporal, suas dores nas articulações terão redução de 30%”, assegura.

 

Tratamentos medicamentosos variam de caso a caso. Podem ser prescritos analgésicos opioides e/ou de longa duração, anti-inflamatórios não-hormonais (em pequenas doses e por pouco tempo), injeções intra-articulares de cortisona e derivados e até mesmo suplementos alimentares de colágeno hidrolisado com vitamina C. Em casos extremos, pode-se recorrer a intervenções cirúrgicas como a osteotomia e a artroplastia, em que se troca a articulação por uma prótese. “Quem decide sobre a realização de cirurgia é o paciente”, frisa Ibsen Coibra.

 

Um diagnóstico equivocado

 

Em 2010, aos 15 anos, a estudante Juliana Pinheiro da Silva (foto) começou a sentir dores no joelho. “Eu sentia dor sempre que fazia um movimento depois de muito tempo parada. O osso ficava tão rígido que eu achava que poderia quebrá-lo se forçasse o movimento”, conta a jovem. As dores eram ainda piores nos dias em que a temperatura caía. Com as queixas constantes, os pais a levaram a um especialista.

 

Uma bateria de exames foi necessária para o diagnóstico, dentre eles o teste de FAN, habitualmente indicado para pacientes com suspeita de doença autoimune. O teste de FAN sugeriu que a adolescente sofria de lúpus, doença em que as defesas imunológicas se voltam contra os tecidos do próprio corpo, comprometendo pele, articulações, fígado, coração, pulmão, rins e cérebro. Imediatamente, Juliana deu inicio ao tratamento da doença. Durante um ano, chegou a tomar oito comprimidos antiinflamatórios e antibióticos por dia para tratamento de lúpus. Nada mudou. “Tomar ou não tomar o remédio não fazia diferença, as dores continuavam com ou sem eles. Eu chegava a chorar de dor”, lembra.

 

As suspeitas de diagnóstico errado começaram a surgir e Juliana foi levada ao consultório de Morton Scheinberg, um dos maiores especialistas do país em doenças autoimunes. Após anamnese e nova bateria de exames, incluindo novo teste de FAN, constatou-se: as dores da estudante não se enquadravam em um quadro de lúpus. Isso porque apesar do teste de FAN continuar apontando resultados positivos, a jovem não apresentava os demais fatores que poderiam caracterizar o lúpus, apenas uma tendência a desenvolver hipertiroidismo. Os remédios para lúpus foram imediatamente suspensos.

 

Encaminhada para um novo reumatologista, obteve finalmente o diagnóstico correto. Tratava-se de osteoartrite de origem genética e, no caso dela, o melhor remédio era a prática de exercícios físicos. Para os períodos de crise, receitaram-se anti-inflamatórios.

 

Hoje aos 17 anos, Juliana continua seguindo as recomendações, mas já convive bem com o problema. “As dores ainda acontecem, mas são muito menores e só aparecem quando deixo de me exercitar”, diz.

 

*Reportagem publicada originalmente no Jornal do Advogado, edição de maio/2013.


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