Relato dos pais é fundamental para o diagnóstico. Exames complementares, como tomografia, são pedidos para excluir possibilidade de outros males
Da hora em que acorda até a hora de dormir, a criança anda, corre de um lado para o outro, pula, sobe em móveis, derruba objetos, não para quieta nem durante as refeições. No colégio a agitação é a mesma e a desatenção interfere no rendimento escolar. Tarefas são feitas pela metade e com erros grosseiros. Essas são as principais características de crianças portadoras do transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), doença que pode se prolongar pela fase adulta, comprometendo o desempenho profissional e as relações afetivas.
Existem três tipos de TDAH, conforme a prevalência dos sintomas – ou o déficit de atenção, ou a hiperatividade, ou os dois em equilíbrio. Meninas que sofrem do problema costumam ser mais quietas fisicamente, mas seu índice de desatenção é maior. Já os meninos apresentam maior hiperatividade física. “Não se sabe dizer por que a doença envolve essas preferências, se é um fator biológico ou um fator cultural, já que nossa sociedade tem certos comportamentos femininos e masculinos enraizados - o menino é mais bagunceiro e a menina mais quieta”, diz o psiquiatra Alfredo Simonetti, membro da Associação Brasileira de do Déficit de Atenção (ABDA).
Os motivos que desencadeiam o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade também não são totalmente claros. Exames cerebrais como ressonância magnética e eletroencefalograma não mostram diferenças entre os portadores e os não-portadores da doença. Estudos específicos, contudo, parecem apontar para o desvendamento do problema. “Supõe-se que o lobo frontal do cérebro, encarregado da atenção, do impulso, da organização e da concentração em atividades contínuas, nos pacientes com TDAH trabalha pouco, é fraco e não consegue se impor perante as demais partes do cérebro, as quais, sem um ‘breque’, fazem a festa”, explica Simonetti.
O diagnóstico preciso do TDAH pode requerer participação de psicólogo, psiquiatra e neurologista. “Tanto faz qual dos três profissionais vai atender e fazer o diagnóstico na criança, desde que os pais se certifiquem que essa pessoa tem experiência no diagnóstico e tratamento do transtorno”, esclarece o especialista. O diagnóstico do TDAH é clínico, baseado um pouco no que o médico observa na criança durante a consulta e muito no relato dos pais e até dos professores. Exames de tomografia, ressonância magnética, eletroencefalograma e teste psicológico também fazem parte do processo de diagnóstico, mas a principal missão destes é a de excluir a possibilidade de outras doenças.
São comuns os casos de adultos com TDAH que desconhecem seu quadro. A detecção da doença nas fases mais avançadas da vida exige uma investigação extensa das condutas pregressas do paciente e baseia-se muito no relato deste sobre sua infância, além das queixas atuais, que geralmente vêm relacionadas com o trabalho e repletas de esquecimentos, perda de compromissos. “Nos adultos a hiperatividade está muito ligada à agitação mental”, ressalta o psiquiatra.
O tratamento do TDAH é dividido em duas partes: seções de terapia com psicólogo e tratamento medicamentoso. O tratamento com medicamentos não é indicado a crianças menores de seis anos, pois os remédios são de uso estritamente controlado e podem reduzir o apetite e até prejudicar o crescimento.
Simonetti recomenda tranquilidade aos pais quanto aos possíveis efeitos colaterais da medicação. Segundo o psiquiatra, nem sempre todos as reações adversas acometem a criança. “O tratamento psicológico tem o intuito de ajudar a criança a se organizar, mas o impacto dele é muito pequeno. Resultados expressivos mesmo, só o medicamento traz, pois estimula o cérebro a se concentrar”, afirma. E completa: “Porém, é preciso ficar claro para os pais que o remédio não é a cura para a TDAH, como o antibiótico é para uma infecção. Esse medicamento tem algumas horas de duração, passado esse período o paciente volta a ser o que era antes”.
O TDAH é uma doença do nosso tempo, certamente, que envolve aspectos socioeconômicos e culturais. Justamente por isso é necessário muito critério na hora do diagnóstico. “Vivemos de uma maneira muito organizada e aquele que desarruma essa ordem acaba por ser rotulado. No caso das crianças, o que se faz muitas vezes é transformar um comportamento um pouco mais agitado, natural nessa etapa de vida, em doença”, explica Simonetti.
*Reportagem publicada originalmente no Jornal do Advogado, edição de abril de 2013.