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Terça-Feira, 3 de Julho de 2012
Hipocondria: quando a preocupação com a saúde vira doença*
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Temas relacionados com saúde e bem-estar costumam chamar a atenção da população, sendo responsáveis por vendagens recordes de revistas semanais, quase sempre a oferecer “milagres”. Preocupar-se com a saúde é da natureza humana. Ocorre que, quando exacerbado, esse sentimento torna-se uma doença psíquica a supervalorizar qualquer reação do organismo. Indivíduos que desenvolvem tal comportamento esgotam-se mais facilmente, passam a buscar incessantemente a cura para supostas doenças, inexistentes na realidade, e custam a acreditar quando o diagnóstico médico é de hipocondria.

Sem diferenciação entre os sexos, a hipocondria tem maior incidência após os 40 anos. Pode ser desencadeada por certas características comportamentais que levem a desequilíbrios psíquicos, como ansiedade, melancolia e estresse. A quantidade de informações armazenadas ao longo da vida pode também ser responsável pelo surgimento da patologia. “O cérebro possui uma base de dados. Todo esse conhecimento é utilizado por nós como forma de exclusão ou de inclusão em determinadas situações. No caso dos hipocondríacos, eles o utilizam como forma de inclusão. Relacionam certa dor com a doença da avó, de uma tia, de um primo”, explica o clínico Claudio Miguel Rufino, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Esse tipo de associação caracteriza a hipocondria aguda, transitória, que geralmente acomete pessoas que passaram por grandes impactos emocionais. Tais casos são solucionáveis com acompanhamento psicológico.

Já para os hipocondríacos crônicos o caminho da cura é mais árduo. Além dos diferentes níveis de gravidade, há variações da doença, cada uma a manifestar-se de modo particular. O hipocondríaco obsessivo compulsivo é alarmista, vê o que está retratado nos meios de comunicação como um perigo para sua saúde, vive constante manifestação de sintomas conforme a mídia lhe apresenta temas de saúde. O hipocondríaco fóbico é aquele que tem tanto medo de descobrir alguma doença que evita consultas e exames, passa anos sem ir ao médico temendo o diagnóstico. Já hipocondríaco depressivo é aquele que, não satisfeito com o diagnóstico clínico, sente-se melhor automedicando-se.

Em geral, o indivíduo hipocondríaco não sossega enquanto diversos médicos não confirmam o primeiro diagnóstico, num evidente exagero da regra que manda ouvir uma segunda opinião. No tratamento da hipocondria, explica Rufino, a abordagem médica é psicossomática, e analisa o que acontece com o paciente levando em conta seu contexto. Essa análise é realizada de duas formas: no início, com o paciente fazendo uso da palavra - os pacientes hipocondríacos sentem necessidade de expressar seus sintomas. Em seguida o médico passa a questioná-los. Importante: essas pessoas costumam falar somente aquilo que querem que o médico ouça. A empatia entre médico e paciente é fundamental para a resolução dos casos de hipocondria, e muitas vezes o tratamento medicamentoso pode ser necessário. “O diagnóstico de hipocondria vem da anamnese e não do exame laboratorial. Procuro deixar isso claro aos pacientes. O exame de laboratório não é para convencer a mim, médico, é para convencer a ele”, afirma Rufino. Para se afirmar que determinada pessoa sofre de hipocondria crônica, as perturbações características devem perdurar por pelo menos seis meses.

Resistência ao tratamento

Os doentes de hipocondria custam a aceitar o tratamento, pois sentem essa abordagem como uma desvalorização de sua doença imaginária. Por essa razão um dos passos mais importantes é ele reconhecer a hipocondria como seu verdadeiro mal. O êxito requer transformações conceituais em relação à vida, mudanças de hábitos alimentares e de trabalho, maior interação social e modificação de valores. A princípio, os médicos clínicos estão preparados para o tratamento, mas, em casos mais graves, quando a abordagem clínica não dá conta, é necessária a participação de outros profissionais, como psicoterapeutas.

Quando a hipocondria coexiste com outras doenças psiquiátricas, como a depressão, ministram-se medicamentos. Nos casos em que a hipocondria tornou-se característica intrínseca à formação psíquica do paciente, não há cura absoluta, mas pode-se controlá-la. “Todas as medidas adotadas para o tratamento tentam mostrar para o doente que a sintomatologia apresentada por ele não passa de uma expressão psíquica. Sem dúvida alguma não é um tratamento fácil”, salienta o médico da Unifesp.

Em última instância, cabe ao médico “tratar” também da família do paciente hipocondríaco. Os melhores resultados são alcançados se os parentes aderirem às orientações do médico, a compreender que o caso não é de “frescura”, mas de doença: o hipocondríaco não consegue separar realidade de imaginação. Só que ele não é um doente imaginário, mas alguém que sofre de uma patologia de verdade.

*Reportagem publicada originalmente no Jornal do Advogado, edição de junho de 2012