Alergias: reações nem sempre inofensivas*

Por Paulo Henrique Arantes

Em 23 dezembro 2011


De repente, bolinhas ou vergões avermelhados surgem em alguma região do corpo. Às vezes parecidos com picadas de insetos, podem desaparecer com a mesma velocidade ou migrar para outra parte do corpo. Coçam muito. Estamos falando de urticária, manifestação alérgica de vários subtipos, não contagiosa. Mais frequentes nos membros, no tronco e na face, as urticárias atingem cerca de 20% da população em algum momento da vida, conforme estudo da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia. “De modo geral as alergias são reações imprevisíveis. Não se pode prever com certeza se determinado indivíduo irá apresentar o problema. No caso da urticária, existe a possibilidade dela estar associada a outras doenças”, diz a alergista Fátima Rodrigues Fernandes, presidente da regional paulista da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (Asbai-SP).

 

As urticárias distinguem-se em casos agudos e crônicos. Não há prevalência por faixa etária ou gênero, apesar da maior incidência aguda ser em crianças. Os casos crônicos são mais comuns em mulheres adultas. Ambas podem evoluir para quadros bem graves, com comprometimento dos sistemas respiratório, cardiovascular e nervoso. A urticária crônica pode associar-se a angiodemas, provocando inchaço de órgãos internos como pulmões, glote, músculos e trato gastrintestinal. Ambos os tipos podem levar à morte.

 

 “Ao primeiro sinal na pele, deve-se procurar um especialista”, aconselha a médica. Após detalhada anamnese, o paciente deve ser encaminhado para realização de testes cutâneos e exames para identificar ou descartar possíveis moléstias associadas, como verminoses, infecções ou doenças autoimunes. Tal processo é demorado, por isso o médico costuma prescrever um antialérgico de imediato - em muitos casos, até dois tipos de anti-histamínicos, de modo associado. Caso mesmo assim não haja resposta do organismo, usam-se imunomoduladores. Identificada a alergia, a duração do tratamento varia de acordo com o caso, podendo alongar-se por semanas, meses ou até anos. A busca do agente desencadeador do processo é imprescindível. Destaque-se, contudo, que mais de 85% das urticárias crônicas permanecem com a causa desencadeadora desconhecida.

 

Determinados alimentos, alguns medicamentos, infecções, doenças autoimunes – como as da tiroide - e diabetes são causadores não apenas das urticárias, mas das alergias em geral. “Amendoim, castanhas e mariscos são sabidamente alergênicos. Deve-se, então, evitar o consumo desses alimentos, principalmente em famílias de histórico alérgico”, orienta Fátima. As alterações ambientais – mudança climática brusca, choque térmico em contato com a água, pressão, vibração ou até exercício físico - são responsáveis pela urticária do subtipo físico. A urticária provocada por picadas de insetos chama-se estrófulo. Em qualquer caso, a recomendação é a seguinte: não tome remédio por conta própria – procure um médico. “A automedicação pode causar eventos adversos graves”, alerta a presidente da Asbai-SP.

 

Síndrome de Stevens-Johnson

 

As reações alérgicas decorrentes do consumo de remédios normalmente provocam, no início, lesões avermelhadas na pele, as quais podem virar bolhas e úlceras. Se numa fase seguinte forem comprometidas as mucosas dos olhos, da boca, da genitália, está-se diante de um quadro típico da Síndrome de Stevens-Johnson. A perda total da visão não é rara entre os indivíduos que desenvolvem a doença.

 

“Trata-se de uma reação exagerada e não previsível do sistema imunológico, que passa a atacar suas próprias células. É uma doença que afeta 1,5 em cada 1 milhão de pessoas. É muito grave e traz risco de morte”, explica Fátima Rodrigues Fernandes. O índice de mortalidade por Síndrome de Stevens-Johnson é de 5%. Cerca de 50% dos casos de Stevens-Johnson estão relacionados com o consumo de medicamentos, em especial sulfas, alopurinol, hidantoína, carbamazepina, fenilbutazona, piroxicam, aminopenicilinas. Outros 50% das ocorrências seriam associados a determinados vírus, mas isso ainda não foi comprovado.

 

A Síndrome de Stevens-Johnson exige atendimento emergencial. O paciente deve ser imediatamente hospitalizado, hidratado e monitorado. Para reverter o quadro agudo, corticoides e imunomoduladores são os medicamentos mais utilizados. Sem a identificação e a suspensão da substância desencadeadora, contudo, a Síndrome de Stevens-Johnson evolui para um espectro ainda mais grave, conhecido como NET (Necrólise Epidérmica Tóxica), quando as reações começam a afetar órgãos como pulmões, rins e fígado. Ao se atingir essa fase, o risco de morte sobe para 40%.

 

 

*Reportagem publicada originalmente no Jornal do Advogado, edição dezembro 2011/janeiro 2012


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