Reestruturação corporal. É disso que precisa quem sofre de dores musculares crônicas ou de outros desconfortos decorrentes de tensões internas do organismo. Frequentemente, tais problemas têm motivação postural e a chave para saná-los está na fáscia – tecido que reveste músculos, tendões, ossos e órgãos do corpo humano. A bioquímica americana Ida Rolf, falecida em 1979, estudou por 50 anos para desenvolver uma técnica de correção do tecido fascial que se encontre desordenado. Chamou-se “integração estrutural” o método criado por Ida Rolf, hoje batizado Rolfing em sua homenagem. O Rolfing promove a reestruturação corporal e chama-se rolfista o profissional que o exerce.
Numa definição simplista, a técnica do Rolfing baseia-se no toque aprofundado dos dedos, mas não deve ser classificada como um tipo de massagem, pois envolve, além do manuseio, um detalhado processo de reeducação postural, seja para o caminhar, o sentar-se ou para a prática de exercícios repetitivos. Por meio de manipulação apropriada, o rolfista libera da tensão os diversos segmentos do corpo – pernas, quadris, tórax, cabeça.
“Se uma pessoa permanece muito tempo com a cabeça arcada quatro centímetros para frente, ela terá uma sobrecarga no pescoço, na região cervical e na região dorsal. Isso cria uma força muscular de cerca de 12 quilos”, exemplifica Nestor Bressane, rolfista e diretor da Associação Brasileira de Rolfing. “Nesse caso, o organismo vai ficar despendendo energia para manter tal posição. A fáscia é deslocada para lá e adensa a região para que a pessoa não tenha mais gasto energético”, explica. O Rolfing devolve tudo ao seu lugar.
Bressane vai buscar no cinema o exemplo perfeito em que sua técnica pode ser aplicada. Por caminhar com os pés abertos e as pernas arqueadas, Carlitos, o genial personagem de Charles Chaplin, com certeza necessitaria submeter-se à integração estrutural. “Para andar, Carlitos usava a musculatura interna da coxa – que não existe para isso, mas para estabilizar a marcha. A fáscia adapta-se para que a pessoa ande daquele jeito. O Rolfing separa a musculatura – o que é dentro volta para dentro, o que é da frente volta para a frente, o que é do lado volta para o lado. A pessoa passa a ter liberdade de movimento. Depois disso, vem o aspecto educativo”, detalha o especialista.
Na verdade, o que faz o Rolfing é alinhar o corpo humano à força da gravidade, tornando os movimentos mais fáceis e harmoniosos. “O problema do ser humano é como ele se organiza diante da gravidade, como consegue manter seu eixo estendido, pois a nossa tendência é ir baixando-o cada vez mais”, observa Bressane. “À medida que nos organizamos, adquirimos a possibilidade de reverter esse processo e construir o organismo que queremos”, afirma.
A sessão de Rolfing dura uma hora e o protocolo desenvolvido por sua criadora, Ida Rolf, recomenda 10 sessões. Segundo Nestor Bressane, é importante o retorno depois de seis meses. “O avanço depende do envolvimento de cada um com o processo. Trata-se um trabalho conjunto entre o rolfista e o paciente”, salienta. E acrescenta: “Nosso esqueleto pode ser refeito em 10 anos. Temos condições de programar a nossa velhice”.
Uma informação importante: o Rolfing é contra-indicado para gestantes, portadores de câncer em fase de metástase, pessoas que sofrem de artrite reumatoide aguda e indivíduos com doenças degenerativas neuromusculares.
Formação profissional
No Brasil, os rolfistas são capitaneados pela Associação Brasileira Rolfing (ABR), fundada em 1988 e ligada ao Rolf Institute, dos Estados Unidos. Os cursos e treinamentos para a formação de um profissional de integração estrutural são rigorosos e demorados. Hoje, há médicos, fisioterapeutas, professores de educação física e até advogados – como Nestor Bressane – exercendo o Rolfing.
Entre a classe médica – notadamente entre ortopedistas, fisiatras e neurologistas – as indicações de tratamento por Rolfing vêm ganhando terreno como complemento de procedimentos fisioterapêuticos tradicionais e na reabilitação após cirurgias de ombros, joelhos e coluna. O Centro de Reabilitação do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, já conta com serviço de Rolfing. Recentemente, a ABR firmou convênio com a Uniitalo (Centro Universitário Ítalo-brasileiro) pelo qual a integração estrutural passou a ser oferecida como pós-graduação lato sensu. Na Universidade Federal de São Paulo há também um curso de extensão nessa área.
“Ao sistema público de saúde, acredito que o Rolfing só chegará no médio ou no longo prazo, principalmente devido ao processo de formação profissional – são poucos os rolfistas formados por ano, até por opção da Associação, que quer manter a qualidade do ensino em alta esfera”, salienta Bressane.
O Núcleo de Atendimento, Pesquisa e Educação em Rolfing, órgão da Associação Brasileira de Rolfing, cataloga relatos de mais de 700 casos atestando a eficácia do método de integração estrutural (www.rolfing.com.br/naper).
Relato
Médico neurologista do Hospital Israelita Albert Einstein, João Radvany tem encontrado alívio por meio do Rolfing para suas dores. Ele porta sequelas decorrentes de múltiplos traumatismos por esportes de alto impacto e de cirurgias a que se submeteu. “Conheço todas as técnicas para alívio da dor, e todas estavam falhando”, conta. “Os resultados do Rolfing não são imediatos – são lentos, a exemplo de práticas como o yoga e o tai-chi-chuam”, ressalva.
Radvany elogia a integração estrutural por utilizar a linguagem da anatomia em vez de chavões comuns às chamadas práticas alternativas. “O Rolfing baseia-se na literatura médica”, reconhece, e enfatiza: “Os rolfistas têm uma formação criteriosa, são pessoas bem preparadas, que sabem o que fazem”.
Para o neurologista, o Rolfing não deve ser considerado uma terapia à sombra de outras. “Não sei se a palavra ‘complementar’ é adequada ao Rolfing. Muitas vezes chama-se um método de ‘complementar’ porque certas corporações querem ser donas da cura. Temos, isto sim, de utilizar todos os recursos disponíveis para alcançarmos a cura”, avalia.